Você acorda antes de todo mundo, resolve o café, o uniforme, a conta atrasada, a mensagem da mãe. Quando perguntam onde você quer jantar, responde "tanto faz". Na reunião, a ideia boa fica presa na garganta.
Antes de sair, troca o batom vermelho por um mais discreto, porque achou que era demais. À noite, olha no espelho e encontra uma mulher cansada, que cuida de todos e já não lembra do que gosta.
Ninguém nasce assim. Desde menina você ouviu que mulher direita é discreta, que fala baixo, que agrada, que aguenta. Ouviu que ser demais é perigoso: demais bonita, demais intensa, demais independente.
E a figura escolhida para representar tudo o que uma mulher não deveria ser foi justamente a Pombagira, livre, sensual e dona da própria voz. Pintaram ela como coisa do mal para que nenhuma mulher quisesse se parecer com ela. Funcionou muito bem.
Eu chamo isso de Fogo Abafado. A chama continua aí dentro, mas passou anos sem ar. Por isso você se anula sem perceber, aceita menos do que merece e sente uma tristeza que não sabe explicar.
E quando o chamado aparece, o medo vem junto:
- Você tem vontade de acender uma vela para ela, mas trava, com medo de errar e mexer com o que não conhece.
- Procura na internet e encontra um vídeo dizendo uma coisa e outro dizendo o contrário.
- Esconde a imagem no fundo do armário porque a família, ou a igreja, jamais entenderia.
- O terreiro fica longe, a gira cai no dia em que você não pode, e entre uma visita e outra a conexão esfria.
Cada ano com o fogo abafado cobra o seu preço: relações em que você cabe cada vez menos, decisões adiadas, a sensação de assistir à própria vida da plateia.
A força continua aí. Ela só precisa de ar, de fundamento e de um lugar seguro para acender.